
APRESENTAÇÃO
“No gesto do adeus
ou no toque do reencontro,
aproximam e irmanam pessoas.
Assim são as mãos,
com a sua frente verdadeira
e o seu dorso falso.
Quando as mãos se unem em oração,
nasce uma esperança,
que um dia essas mãos
inquietas, inseguras,
tragam em seus dedos uma flor,
símbolo da aliança duradoura
com a Natureza que as criou.”
Humberto Pellizzaro
Olá gente boa!
Animadas e animados para mais uma Semana da Cidadania recheada de mobilizações, atividades, reflexões e ações práticas?
A Semana da Cidadania, atividade que ocorrerá de 14 a 21 de abril de 2007 em todo Brasil, terá como tema: Cidadania e Meio Ambiente; e como lema:Espaço de Vida, tempo de Direito!.
Organizada pelas Pastorais da Juventude do Brasil, essa ação permanente acontece, a partir do ano de 2006, em sintonia à Semana das e dos Estudantes e o Dia Nacional da Juventude, perpassando a mesma temática.
Embora a Semana da Cidadania esteja datada para os dias entre 14 e 21 de abril, queremos que ela se expanda. Então percorreremos o ano pelas trilhas verdes do tema Meio Ambiente. Para começar temos este material bem recheado.
Essa Semana é um exercício prático de cidadania. Queremos que, nós jovens, assumamos o compromisso com o Reinado de Deus, com um Outro Mundo sem Males Possível com muito pé no chão e ousadia.
Por isso, arrume sua mochila, não esqueça dos materiais necessários e chame a galera para construir junto e participar.
Mãos à obra curumins e cunhatãs!
Pastorais da Juventude do Brasil
INTRODUÇÃO
Em Tempos de Direito, lutemos pela Vida!
Permanecemos com a discussão dos Direitos das Juventudes e da Construção do Projeto Popular para o Brasil. Em comunhão com a Igreja brasileira, queremos nos dedicar a uma reflexão séria e profunda a respeito do meio ambiente e da missão das juventudes diante dos impactos que a realidade nos provoca.
Antes da Semana, é muito importante que os grupos de jovens estudem esse material, pois ele auxiliará a organização. Formem uma comissão organizadora para facilitar o planejamento e a execução das tarefas.
Para a Semana da Cidadania propomos uma leitura bíblico-ecológica da criação de Deus. Queremos discutir os grandes problemas sócio-ambientais, contextualizando o projeto desenvolvimentista e civilizatório imposto no Brasil e a relação homem/mulher/ambiente.
Já a Semana das e dos Estudantes irá discutir os principais atores sociais que contribuem para o agravamento dos problemas sócio-ambientais: madeireiros, latifundiários, monocultores, donos do capital financeiro, industriários, poder público, grandes pecuaristas e outros, apontando a educação ambiental, a preservação da biodiversidade, a participação estudantil e um mundo sem exploração como essenciais para a construção de “Um Outro Mundo Possível”. Terá como tema: Educação e Meio Ambiente; e como lema: Há que se cuidar da Vida. Acontecerá nos dias 06 a 12 de agosto de 2007.
O Dia Nacional da Juventude - DNJ tem o objetivo de mobilizar os jovens e as jovens para a construção do Projeto Popular para o Brasil, entendendo o papel dos movimentos sociais e apontando o meio ambiente como direito dos povos. Enfatizará a missão dos/as jovens como autênticos/as cristãos/ãs para a intervenção na realidade social e eclesial. Terá como tema: Juventude e Meio Ambiente e como Lema: “É missão de todos nós, Deus chama. Quero ouvir a tua voz”. Como de costume acontecerá no último domingo de outubro, dia 28.
Esse material está distribuído em 03 partes. A primeira é uma releitura da criação (Gn 1,1-2,4a), fazendo um convite para a recriação, re-significando a criação como espaço de vida num tempo de direitos. A segunda contém três momentos de aprofundamento distribuídos em três subtemas. A terceira é uma celebração da vida, além de sugestões de atividades e dicas importantes para o planejamento e realização da Semana.
Neste material, você encontra sugestões de como refletir com seu grupo sobre os vários Espaços de Vida e realizar ações que possam semear um Tempo de Direitos. O desafio é aproximar o tema do nosso dia-a-dia e fazer pequenos gestos que tragam o significado do que está sendo refletido, como por exemplo: plantio coletivo de árvore(s) pelo grupo; criatividade na preparação das orações e celebrações litúrgicas, utilizando elementos naturais e outros que revelem a ação humana; motivar a contemplação de paisagens, tanto rurais como urbanas; admirar os detalhes mostrados por desenhos e fotos, ou visitar os locais.
Queremos que a Semana da Cidadania contribua para um despertar ecológico e muita mobilização. Desejamos que as pistas sejam como sementes que cairão na boa terra dos grupos e gestarão os Espaços de Vida. Pois, como diz o poeta...
“A vida nada mais é do que o alçar do vôo de um pássaro,
Num instante, tão de repente, célere, passa por nós.
Ora qual condor. Ora como o beija-flor,
Adejando, minuciosamente, cada flor do caminho.
Outra, como a águia: agitada, tenaz, pertinaz,
Por vezes, tão tenra como um canário,
Sem saber o que fazer!
Outra, tão cheia de luzes, risos, alegria,
Qual araras têm tamanha algazarra!!!”
E como os pássaros que voam alto, alegres, cheios de vida e de sonhos...
vamos ensaiando um novo Tempo de Direitos.
Que Tupã nos proteja!
Fazendo a SEMANA da CIDADANIA
A Semana da Cidadania é uma atividade dos grupos de jovens organizados como Igreja no Brasil. É uma ação ligada à dimensão política. É uma atividade do/a discípulo/a missionário/a de Jesus. É um modo concreto de manifestarmos como cristãos/ãs nossa fé na vida, nossa crença no protagonismo dos/as jovens.
A Semana da Cidadania não é um evento. É parte de um processo dos grupos organizados que desejam ir ao encontro dos outros/as jovens para anunciar a vida para todos/as e vida em abundância.
A cada ano as Pastorais da Juventude propõem um tema. Esse tema é para dar unidade e um enfoque especial.
Dicas importantes:
1º Passo: Convidar um grupo de pessoas do seu município, sua comunidade ou seu bairro para estudar o tema e para planejar as atividades.
2º Passo: Elaborar o planejamento respondendo as seguintes perguntas:
a) Onde queremos chegar? (pensar local e agir global). Lembre-se de que é uma atividade de uma semana, portanto, os objetivos também são curtos, por exemplo, discutir o tema do meio ambiente com os grupos de jovens, envolver as escolas do município, do bairro ou da comunidade etc.
b) Sobre o tema do meio ambiente, quais são os gritos que escutamos em nossa comunidade? O que dizem os/as jovens? Em que esse tema afeta os/as adolescentes e jovens? Que necessidades esses gritos revelam? Quais respostas podemos dar como grupo a essas necessidades?
c) Pode-se organizar as respostas mais próximas e ver como responder dentro de um projeto, exemplo: Projeto 1: O Direito a vida ou o cuidado com a vida, objetivo (onde queremos chegar), justificativa (dados da realidade a partir das necessidades e das intenções como cristãos/ãs), ponto de partida (todas as condições favoráveis grupos que já estão trabalhando o tema, utilizar o tema da CF 2007 sobre a Amazônia, escolas que buscam ajuda em uma atividade extra sala. Diretores/as que estão sensíveis ao tema, professores/as, coordenadores/as, catequistas, agentes de pastoral etc que tenham disposição de se envolverem no projeto) e depois sinalizar o ponto de chegada (aqui pode-se explicitar tanto o que queremos conseguir de modo quantitativo, como qualitativo exemplo: queremos ter envolvido 10 escolas, mobilizado os grupos de jovens, trabalhado a consciência ecológica, despertado para o cuidado do planeta....)
d) Quais as etapas do planejamento? A primeira e a mais importante é formar a equipe que coordenará a semana, com um plano bem claro e com todos os passos que precisam ser dados, depois pode-se verificar as atividades que devam ser desenvolvidas: filmes: Chico Mendes, da CF (preparado pelo Mundo Jovem e IPJ de Porto Alegre), Alguns Clipes do Recurso Áudio Visual: Geração da Paz ou Cidadania etc. Debates: convidar gente da comunidade para discutir sobre o tema, fazer uma mesa redonda no Município, bairro ou comunidade, convidando autoridades para discutir Os/as jovens e o futuro do Planeta cuidar do meio ambiente (envolver pesquisadores de diversos órgãos públicos), Estudar o tema dos Biomas (Amazônia, cerrado, semi-árido etc), Ação: organizar junto com os/as adolescentes e jovens uma ação que chame atenção da comunidade Limpeza do lixo junto as águas, divulgar projetos de reciclagem, um dia na praça com panfleto sobre o abuso do preço da energia elétrica, ou, ainda, juntar com os movimentos sociais como o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra no Abril em luta etc. Cada lugar precisa ser criativo na atividades que respondam às necessidades levantadas. É preciso ser ousado/a nas propostas de forma que toda sociedade seja questionada.
e) Realizar as atividades programadas dentro do projeto, envolver todos/as comunicando todas as atividades em todos os ambientes. Comunicar é um segredo do projeto.
f) Avaliar: reunir o grupo envolvido para perceber se foram realizadas as metas (quantitativa e qualitativa que estão no ponto de chegada e no objetivo geral) O que conseguimos realizar? O que não conseguimos? Por quê? Quais foram os limites? Que cuidados temos que estar atentos/as no próximo projeto?
3º Passo Envolver o maior número de equipes em todos os espaços, ou seja, uma ação só alcançará os objetivos com profundidade se houver uma boa distribuição de tarefas. Portanto, em cada lugar deverá ter uma equipe: escola, comunidade, pessoas com tarefa, material e cronograma na mão, na cabeça e no coração. Buscar os grupos organizados do município na defesa do Meio ambiente para essa tarefa.
4º Passo: Recolher o material que pode ser utilizado neste tema (livros, roteiros, filmes...) Não só coisas novas, coisas que já utilizamos sobre o tema: filmes; CF- Campanha da fraternidade para jovens de 2007 e de outros anos; materiais da Semana da Cidadania de outros anos; roteiros proposto pelo Jornal Mundo Jovem (selecionar alguns textos); pesquisar na internet textos sobre o tema; buscar material de grupos que estão na luta em defesa do Meio Ambiente, como o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra. Pode-se oferecer momentos culturais: teatro, músicas, danças etc.
Aprofundamento BÍBLICO
Pura Magia
Frances de Azevedo
Para aquele entardecer de gala
Da natureza, que beleza!
O palco, a princípio iluminado
pelo por do sol que, mortiço,
deitava os últimos laivos de luz
tingindo de carmim o céu que seduz!!!
As montanhas ao derredor,
como pano de fundo,
aos poucos, se calavam.
Os derradeiros gorjeios do passaredo,
gradativamente, iam cessando:
O vento, mensageiro da floresta,
calou-se também...
Este era o cenário imenso
que compunha o ato principal a se desenrolar.
A platéia, neste dia, mui distinta,
a tudo assistia inebriada
comentando o quadro espetacular que
se descortinara há pouco...
A claridade que se dissipara
cedeu lugar à noite clara, calma,
já que a lua sucedeu ao rei dos astros.
Esta mudança de cena
deu-se imperceptivelmente; de forma sutil
pura magia de quem domina a arte!!!
Tudo preparado. Hora do show...
Pam! Pam! Pam! Pam! Pam!
A orquestra ataca, sem que todo o público se dê conta
(até porque, ainda, extasiado com o número anterior)
De onde procede este som retumbante?!
Não se vê seus integrantes!...
O lugar da encenação, agora, é outro.
Mais próximo dos expectantes:
Não está no céu enluarado...
Não está na mata adormecida...
Não está no chão endurecido...
Sobressai na lagoa mais abaixo!!!
Que transposição fantástica!!!
Se antes os olhares circundavam o horizonte
ou voltavam-se para o infinito
vergam-se, nesta hora, extasiados,
Diante do inusitado, porém cadenciado ruído!!!
Guiados pela iluminação holofótica do condutor humano
que, habilmente, dirige o foco para os anuros
de toda ordem que compõe o estridente grupo musical...
A noite desceu por completo.
A orquestra em uníssono cessou.
Remanescendo, contudo, algum renitente
Aqui, acolá...
Quiçá ensaiando para o dia seguinte...
No palco da Criação
Vou te contar uma história, era uma vez...
há muito tempo, lá no princípio...
...Deus criou o céu e a terra. A terra estava deserta e vazia, as trevas cobriam o abismo e o Espírito de Deus pairava sobre as águas. (Gn 1, 1-5).
Quando Deus criou o céu e a terra, Ele já tinha um projeto de Reinado, um projeto de vida para a humanidade. Um caminho de felicidade para todos/as. A juventude fazia parte do sonho de Deus e, pensando também nela, Deus criou céu e terra para a felicidade dos/as jovens. Sabendo o tamanho dos sonhos da juventude, quis orientá-la e para isto, fez a luz para distinguir o dia da noite. No começo, o dia foi feito para o trabalho e a noite para o descanso. Deus nem imaginava que estava criando uma terra que seria dominada por uma minoria, pois já no primeiro dia destacou a terra como lugar de direito, como uma coisa muito boa para as espécies que seriam criadas nos dias seguintes. Já no primeiro dia, a terra se tornara espaço de vida para toda a criação!
Na sucessão das coisas criadas, fez-se a luz para clarear as coisas obscuras. Da distinção entre trevas e luz, a criação lança para a humanidade o desafio de fazer com que a luz seja mais forte que as trevas provocadas pela limitação de nosso olhar. A luz rompe com as trevas. Necessitamos ver o mundo com olhos da criação original para romper com as trevas que nos impedem de desfrutar do paraíso criado para nossa felicidade, para a felicidade e bem-viver da juventude.
Ao criar terra e céu, luz para romper com as trevas, Deus desejava ver seus filhos muito felizes e por isto, criou a terra para o sustento da dignidade humana e o firmamento para integrar a paisagem terrestre na mais perfeita harmonia, numa sintonia ecológica de se admirar: olhando para o céu, se poderia buscar inspiração para o cultivo da terra. Percorridos muitos anos desde a criação do céu e da terra voltamos nosso olhar para o conjunto da obra criada, buscando recriar a ação pela origem de nossa existência, percebendo a ausência/presença do Criador na terra que hoje cultivamos, plantamos e transformamos com nossas mãos.
O céu foi criado para dar harmonia ao conjunto cósmico tão necessário para a vida abundante que todos/as filhos/as de Deus merecem ter. Ao criar o Céu, Deus ofereceu uma paisagem de encantamento para a juventude. Certamente, já fazia parte de seus planos que, debaixo do céu, numa terra fecunda, muitos jovens se enamorariam e dariam harmonia à obra criada. Deste enamoramento, nasceria atitudes éticas, relações respeitosas com o ambiente e com as pessoas.
Debaixo do céu, à luz da constelação, entre estrelas e lua, entre sol e nuvens, muitos jovens traçam seus sonhos pessoais e coletivos, definem sua vida com suor e com amor, com calor e com ardor. O conjunto da obra criada suscita na juventude paixões, sonhos, propostas de vida, de engajamento, de seguimento ao Reino! E hoje? A juventude tem conseguido apropriar-se da beleza do céu para lançar vôos em busca de suas realizações? Como o céu criado por Deus contribui para a manifestação dos sonhos coletivos? Como é o céu que temos? E o céu que queremos ter?
Aos poucos, a criação vai encontrando harmonia. Terra, céu, luz, firmamento, água, luzeiro maior/dia, luzeiro menor/noite, estrelas. Espaços de vida contraditórios com o tempo de direitos que ainda não vivemos! Do sonho de Deus com uma pessoa humanizada nasceu, para todos/as a criação, símbolo de vida. Da força das ações diabólicas de algumas pessoas, hoje estamos desumanizados, bem distantes daquilo que Deus criou e viu que era bom. O que Deus nos diria hoje, da sua criação?
Plantas, frutas, sementes de espécies diversas foram criadas para garantir que nenhuma pessoa passasse fome. Mares, rios, lagos, água corrente, florestas, matas, bosques, campos... Paraísos ecológicos para tornar-nos cada vez mais humanizados, integrados pessoal e socialmente. No paraíso criado por Deus deveria ter muitas frutas saborosas para cuidar da saúde das pessoas. Desde o princípio a humanidade foi cuidada com carinho por Deus. Deus viu que era bom a árvore produzir frutos. Como cultivamos isto? Nossa vida é capaz de lançar sementes e produzir frutos diversos na vida de outros /as jovens?
Enfim, mulher e homem foram criados à imagem e semelhança de Deus para relacionarem-se no complexo conjunto sócio-ambiental. Na relação entre natureza e pessoa, homem e mulher, criatura e criador, temos constituída a espécie humana com todas as condições para desenvolver e crescer humanamente sob o olhar e cuidado do criador. Um império a serviço da felicidade, na construção do Reino!
Aos poucos a humanidade foi permitindo que o conjunto de ações diabólicas fosse destruindo a criação e distanciando o criador das criaturas. O Reino da felicidade foi sendo habitado por pessoas que alimentavam ideais desiguais. Provocou-se, conseqüentemente, o fortalecimento de privilégios, discriminação, discrepâncias de todos os tipos ao ponto de já não mais nos reconhecermos na humanidade necessária para a harmonia entre criador e criatura, natureza e pessoa, pessoa e pessoas.
Ao criar tanta coisa boa, Deus nos chamou, também, para sermos felizes. Num mundo que padece as conseqüências de um processo de desigualdades, que desviou a finalidade original da criação e alimenta há décadas a destruição do ambiente por causa das relações de poder, especialmente econômicas, a juventude é convocada a se humanizar para construir novas relações no seu meio ambiente. É preciso reconstruir a originalidade da criação.
Aprofundamento da REALIDADE
No palco da Vida
“No ar já não vejo papagaio, até de pião ninguém jamais brincou”...
Canta Caboclo
As raízes desse canto falam sobre nós, falam sobre ti
e dessa força tão estranha tentando nos destruir.
Ai que dor! Ai que dor!...
Canta caboclo, canta, canta filho da mãe
mãe natureza com a palha na cabeça
e o couro sob os pés
Cada dia que se passa há tristeza em meu olhar
nossa mãe esta chorando vendo o filho se acabar.
Mãe natureza não chore não
nós não vamos permitir que o fogo desta ambição
possa o verde destruir
Ai que dor! Ai que dor!
E no cantar dos pássaros ainda vemos solução
pois nas asas desse canto o caboclo é pé no chão
E se a água está toldada caboclo não bebe não.
Sai no fio da correnteza no banzeiro da certeza
de voltar pro seu sertão
Ai que dor! Ai que dor!
Raízes Caboclas
Em tempo: qual e o nosso ESPAÇO
Quando pensamos em meio-ambiente logo nos vem à mente locais cheios de mata, plantas e animais exóticos; talvez um lugar distante ou apenas contemplado pela nossa imaginação. A proposta desta Semana da Cidadania e as reflexões e atividades aqui sugeridas vem trazer a idéia de que todos (todos mesmo!) os Espaços são parte constitutiva do ambiente. O Espaço urbano, o Espaço de nossas casas, escolas, trabalho e comunidades são ambientes transformados, num processo que não pára e nunca está pronto. Mulheres e Homens são co-construtores da criação natural, pois também (e principalmente) recriam os Espaços através dos tempos. E cada Tempo deixa sua marca no Espaço.
Como era o Espaço de nossa comunidade na época de sua fundação? Quais eram as características do Espaço do nosso bairro antes da ocupação? Quais são as marcas deixadas pela ação humana que percebemos ao nosso redor? Tudo isso ajuda a nos situar diante das transformações positivas do ambiente, fruto da nossa co-responsabilidade na Criação (Gênesis 1, 27-29), e também da necessidade de reconhecer os retrocessos e limites da ação humana, causando danos, muitas vezes irreversíveis, ao Espaço e, por conseguinte, ao Tempo das gerações presentes e futuras. Pois o Espaço também marca o Tempo.
Ao longo da história observa-se estes fenômenos em paralelo à noção de cidadania. A palavra “Cidadania” tem origem no termo “cidade”. Ser Cidadã/o é, pois, dedicar-se pelo bem deste Espaço. É trabalhar para que a cidade, seja rural ou urbana, não se configure como um ambiente de desigualdades e morte: situação que começa pela destruição do próprio Espaço e de tudo que o compõe.
Cuidar de um meio ambiente saudável é começar pela mudança de nós mesmos, como já dizia Gandhi: “nós devemos ser a mudança que queremos ver no mundo”.
Que doemos nossas existências como Templos de Vida (1 Cor 3, 16-17) que transbordam Vida Plena para os Ambientes ao nosso redor, para que aconteça em nosso Tempo a esperança profética de vários povos de todos os Tempos: que vejamos, então “um Novo Céu e uma Nova Terra” (Ap 21, 1), os Espaços de Vida e o Tempo de Direitos!
Bio Diversidade Brasileira
Reconhecimento do Espaço de Vida
Biodiversidade é a variedade de formas de vida num determinado ambiente e o modo como elas interagem entre si. É claro que o homem e a mulher são atores importantes nesse processo: ora interferindo de forma positiva, ora preservando, ora degradando e fazendo uso dos recursos de forma abusiva, podendo chegar a exaustão ou extinção.
A biodiversidade brasileira é uma das mais privilegiadas do mundo e algumas regiões têm se mostrado mais vulneráveis atualmente. Ao refletir sobre essa temática, vale a pena discutir a questão da criação de unidades de conservação ecológicas e o desenvolvimento de projetos de extrativismo controlado (caso da Amazônia), as queimadas que comprometem o equilíbrio do solo e ameaçam à fauna (caso da Caatinga), o desenvolvimento agrícola em larga escala (caso da soja no Cerrado), a caça clandestina, o garimpo do ouro e das pedras preciosas (caso do Pantanal) e a monocultura do eucalipto, conhecida como “deserto verde” (especialmente na Região Sul), entre outros assuntos percebidos como relevantes em sua realidade.
Cultivo do Tempo de Direitos
Exercício da escala
Cada integrante do grupo fará, em desenho ou escrevendo, a descrição espacial de várias “escalas” de onde vivemos. Exemplo: começar descrevendo como é o ambiente do quarto, depois da casa, da rua, do bairro e da cidade, até chegar à descrição do planeta. Refletir sobre o que se repete, como o ambiente externo influencia na menor escala e como o conjunto das escalas menores pode significar uma alteração no ambiente todo.
Conhecer algumas leis ambientais.
Sugestões
Art.225 da Constituição Brasileira: “Todos têm direito ao meio ambiente
ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia
qualidade de vida, impondo-se ao poder público e à coletividade o dever de
defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações.”
Lei
dos Crimes Ambientais (9.605/98):
www.planalto.gov.br/ccivil/Leis/L9605.htm
Lei
sobre a Política Nacional do Meio Ambiente (6.938/81):
www.planalto.gov.br/ccivil/Leis/L6938org.htm
Ar
Reconhecimento do Espaço de Vida
O ar é composto por nitrogênio (78%), oxigênio (21%) e outros gases (1%), dentre os quais estão o vapor d'água e o gás carbônico. Essa combinação é resultado de várias transformações ocorridas ao longo tempo e que hoje forma a atmosfera, camada que envolve a Terra numa faixa de centenas de quilômetros e que se mantém em contínuo movimento.
Uma das questões importantes que envolvem as discussões sobre a atmosfera terrestre é a poluição. Considera-se poluição qualquer modificação na composição natural do ar e se define como poluente toda substância que torne o ar impróprio ou nocivo à saúde. Desta maneira, pode-se afirmar que a qualidade do ar vai depender da combinação entre a quantidade dos poluentes que são emitidos, a capacidade da atmosfera em dispersá-los e da natureza em convertê-lo em purificá-lo novamente. Como os veículos são os responsáveis por 85% dos poluentes atmosféricos e as indústrias pelo restante, as zonas urbanas são muito mais poluídas (e poluidoras) do que as rurais.
As conseqüências dos gases tóxicos na atmosfera atingem diretamente a saúde e, mais precisamente, o aparelho respiratório, diminuindo sua resistência e agravando doenças já existentes, como a asma, por exemplo. Dentro de casa também pode haver poluição quando há emissão de produtos químicos (de limpeza ou mesmo pelo cigarro) em um espaço de pouca ventilação e onde a renovação do ar é baixa, fazendo com que os poluentes fiquem concentrados. Outro tipo de poluição é a eletromagnética, vinda pelas antenas de TV, celular e rádio. Este último tema ainda é controverso, mas vale a pena ficar atento às discussões que estão em pauta.
Além desses problemas, o excesso de poluentes na atmosfera provoca outros fenômenos como o efeito estufa, a inversão térmica, a redução da camada de ozônio e a chuva ácida.
Cultivo do Tempo de Direitos
Fazer um exercício de relaxamento a partir da respiração. Motivar a percepção do ritmo (Tempo) da respiração e dos espaços do corpo que o ar alimenta.
Pensar na responsabilidade em poluir esta parte do ecossistema: Deus dá a Vida através do sopro (Gn 2, 7) e a morte pode vir através da irresponsabilidade com este bem.
Pode-se refletir também:
Nos centros urbanos: qual é o espaço que ocupa um automóvel e a poluição que produz para o deslocamento? De quantas pessoas? Vale a pena pelo quanto se destrói da camada de Ozônio e o quanto se aumenta do efeito estufa? E o transporte coletivo?
Nas áreas rurais: quais são os poluentes emitidos? Existe algum espaço que ocorre foco de erosão? De que tipo?
Água
Reconhecimento do Espaço de Vida
A água na Terra formou-se com o planeta há mais ou menos 3,8 bilhões de anos e é ela que circula e possibilita a vida no planeta até hoje. A água nutre todas as formas de vida e todos os seres que existem, permitindo a circulação dos nutrientes no organismo, assim como a eliminação das impurezas.
A maior parte da água do planeta está concentrada nos oceanos e, de toda água doce superficial e disponível hoje, apenas 0,1% é potável. O uso que fazemos da água é muitas vezes desordenado e desfavorável a nós mesmos. Refletir sobre o nosso consumo, tanto direto (oriundo do abastecimento público) como o indireto (decorrente das formas de produção agrícola e industrial), pensar sobre onde gastamos nossa água, como evitar o desperdício e viabilizar maneiras de uso racional da água, são itens de importante discussão em nossa família, escola e comunidade.
A Agenda 21, documento elaborado durante a Eco-92 (Conferência Mundial das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente), dedicou um capítulo especial à questão água e traz discussões importantes sobre a gestão dos recursos hídricos, a proteção dos rios e mananciais. No Brasil, em 1997 foi aprovada a legislação de recursos hídricos e em 2000 foi criada a Agência Nacional das Águas (ANA). Esses documentos podem iluminar algumas discussões do grupo sobre o uso da água em nosso país.
Cultivo do Tempo de Direitos
Calcular o consumo médio de água por pessoa e da família e comunidade:
Consumo médio diário com banho por pessoa
(obs.: chuveiro com vazão média de 3,5 Litros por minuto e banho de cerca de 15 minutos, sendo que a utilização de ducha triplica o consumo demonstrado a seguir):
15 minutos x 3,5 Litros = 52,5 Litros;
52,5 Litros x 30 dias = 1.575 Litros/mês = 1.57m³
Isso significa cerca de 34% do consumo mensal de apenas uma pessoa.
Em outras palavras, dois terços do consumo de 4.500 Litros mensais por pessoa pode ser racionado através de controle do tempo em banho.
Pode-se visualizar o quanto cada pessoa gasta por dia: 150 Litros, em média, equivalem 75 PETs de 2 Litros.
Em grupos, pesquisar sobre mananciais (fontes, rios, lagos, Poços artesianos) que abastecem a sua cidade.
Visitar uma estação de tratamento de água.
Verificar se é possível fazer algumas economias domésticas (em casa e na comunidade) e com quais atitudes (por exemplo: manutenção da rede hidráulica, tempo de banho).
Lixo
Reconhecimento do Espaço de Vida
A principal causa de poluição do solo, da água e do ar diz respeito ao modo como tratamos o lixo que produzimos. Entendemos por lixo tudo aquilo que não tem mais utilidade a partir de um dado momento e, normalmente, associa-se a ele a idéia que deve desaparecer e sair da vista das pessoas. É a partir dessa concepção presente em nossa cultura que tratamos o lixo como algo que representa o fim do ciclo de vida de um material ou produto, tendo de ser descartado, no entanto, na natureza a renovação dos elementos é o que garante a vida: podemos pensar que as formas de reutilização e reciclagem do lixo são maneiras de também tentarmos nos aproximar do ciclo de vida natural das coisas.
Um aspecto diretamente relacionado à problemática do lixo é a existência da cultura do desperdício e o uso excessivo dos objetos descartáveis. Muitos dos produtos antes considerados “bens duráveis” (carro e eletrodomésticos, por exemplo) possuem uma duração bem menor do que anos atrás, seja pela própria fragilidade do produto, seja pelas inovações trazidas pelo mercado, que tornam os “novos” aparelhos uma necessidade para a vida moderna e exigindo que os antigos sejam descartados.
Outro ponto é a grande produção e uso de embalagens e copos descartáveis representam a maior parte do volume do lixo produzido, ou seja, o que era acessório virou um produto em si, em nome da praticidade.
Cultivo do Tempo de Direitos
Legalmente as prefeituras são as responsáveis pela limpeza pública, o que significa: coleta, transporte e depósito do lixo. Esse último caminho possui as seguintes alternativas: reciclagem, reutilização, compostagem, incineração, aterro sanitário ou depósito em lixões.
É importante conhecer cada umas dessas possibilidades, refletir sobre as vantagens e desvantagens que apresentam e pesquisar qual destino costuma ser dado ao lixo em sua cidade. Além disso, pode-se pensar na sensibilização e na mobilização dos grupos que participa (família, escola, paróquia) para o desenvolvimento de um programa de coleta seletiva de lixo. O Instituto GEA http://www.institutogea.org.br possui uma sugestão de roteiro para a realização do Programa de Coletiva Seletiva, em etapas. Vale a pena consultar!
Estimular a redução da utilização de copos de plástico nos nossos encontros e em outros ambientes.
Montar oficinas de reciclagem simples, como por exemplo, a de papel.
É possível fazer artesanato com papel jornal, revistas, garrafas e copos plásticos. Seja criativo na criação de oficinas!
Utilizar para as dinâmicas do grupo de jovens, papel reaproveitado (rascunho, utilizar o verso daquilo que já foi utilizado). Use também o verso de cartazes antigos.
MAMA TERRA
Rãs Adauto
Garimpos de mortes, lucros clandestinos e desesperos radioativos.
Comandos de motosserras e fogos de queimadas.
Na fachada do estabelecimento, em letras caprichadas de néon.
E desenhos de araras:
“RESERVA Amazônica: Turismo Ecológico!”.
- Por aqui senhores e senhoras, que belo plano:
Seringais nas vetrines, Onças mestiças sonolentas
Jacarés preguiças ao sol, O grande rio caudaloso
E seus afluentes e igarapés
Correm seus destinos e mágoas imensas
E não escutam os gritos das meninas morenas
Estupradas nas taperas e quebradas.
O governador prega a moral nacionalista e regional:
- A Amazônia é nossa.
Mas as suas mãos estão sujas de dólares e peles de jacaré
E quantas madeiras foram cortadas, curumim?
Mas a grande selva-selvagem, Ruge ainda as revoltas dos índios inssurretos
E das antigas nações destroçadas
Que não se entregaram nunca.
Mas seus poetas estão bêbados
Seus pintores loucos, Seus jornalistas mudos
O resto é desconsolo e esperanças misturadas
Imensidão de águas infinitas.
No palco da história
Deus criou o homem e a mulher...
Homens e Mulheres, Espaços e Tempos: todos como frutos e agentes protagonistas na construção uns dos outros. E é nessa dinâmica de influências, como resultado de idas e vindas históricas, aparecem a vida ou a morte, os Direitos ou as carências.
Para existir Vida, tem que existir um lugar/espaço para que ela aconteça. E para que ela seja plena (Jo 10, 10) há de se observar se o Espaço é de e para todos e todas; se os frutos deste chão não estão sendo de alguns poucos que concentram em relação a muitos que sobram na margem. Se o uso do espaço e daquilo que se obtém dele o respeita como bem coletivo das gerações do tempo presente e também do tempo futuro.
O primeiro passo que vamos dar juntos é deixar de ver o ambiente como algo externo a nós, observado de fora como algo a ser preservado. Somos parte integrante dele, ora determinados pelos limites do Espaço e do Tempo, ora determinantes de uma história que retrocede ou avança na caminhada rumo aos Direitos e à Vida.
No palco da realidade
O homem criou Deus e sua criação...
Historicamente o modelo político e econômico reproduzido no Brasil, de enorme concentração de poder na apropriação dos recursos naturais, carrega consigo, em grande parte, as chagas dos problemas sociais, ambientais e culturais.
O sistema econômico vigente tem dominado e explorado, por muitos séculos, de forma ilimitada os recursos naturais e os ecossistemas. Se esse modelo tem impulsionado o crescimento econômico e o chamado desenvolvimento para poucos países, enquanto que a maioria da humanidade tem sofrido exclusão, empobrecimento com condições mínimas de sobrevivência, o que se observa é que a carga negativa dos danos do 'desenvolvimento' recaem sobre as populações de baixa renda, os grupos raciais discriminados, os povos étnicos tradicionais, as populações marginalizadas e vulneráveis, do campo e da cidade.
Vivemos no planeta uma crise ambiental sem precedentes, pois o modelo dominante de desenvolvimento capitalista e de civilização é concentrado no lucro, no poder, na hegemonia, etc. O avanço das políticas econômicas com a descoberta de novas tecnologias constitui-se base sólida de exploração e apropriação dos recursos naturais1, acentuando as desigualdades sociais, a exclusão e aniquilação do ambiente.
Aliado ao modelo tecnológico e desenvolvimentista, destaca-se o processo de transformação da economia rural. Pois a implementação desse modelo gera inúmeros problemas sócio-ambientais para as populações tradicionais2, onde a Mecanização Do Campo, a Agroindústria, o uso constante de agrotóxicos transformam consideravelmente o ambiente e o modo de vida das populações que vivem em espaços florestais e rurais. Este sistema de exploração da natureza e das pessoas, junto a modelo de produção e ao consumo desenfreado tem se pagado com o sofrimento de muitas mulheres, homens, jovens, trabalhadores/as, campesinos, indígenas, pescadores e milhares de pessoas pobres que vêm todos os dias seus direitos serem saqueados e suas vidas roubadas. A sucessiva agressão ao ambiente ameaça à integridade das pessoas e a existência de todas as formas de vida.
O empobrecimento sócio-ambiental da população brasileira é decorrência do modelo de desenvolvimento concebido e implantado no Brasil, gerando a degradação ambiental, de um lado, e a perda da dignidade, de outro, além da restrição da aquisição de cidadania e da garantia dos direitos da maioria dos brasileiros e das brasileiras. Pádua (2003) afirma que, “em nome de uma concepção autoritária de progresso, desestruturam-se as condições materiais de existência de grupos socioculturais territorialmente referenciados e destruíram os direitos das populações inseridas em formas sociais de produção não-capitalistas3”.
Preparando o terreno...
Estão na lista dos principais conflitos sócio-ambientais os recursos hídricos, queimadas, pesca e caça predatória, extração predatória de recursos naturais, desmatamento, garimpo, pecuária, monocultivo, extração de madeira, grandes projetos, regularização fundiária, ordenamento territorial, violência física declarada, e moradia.
Que tal juntar o teu grupo e fazer uma pesquisa sobre:
Agronegócio, sojicultura, grandes plantações de eucalipto;
Conflitos agrários (trabalhadores/as rurais, povos indígenas, comunidades
quilombolas)
Grilagem de terras;
Extração predatória de madeira;
Expansão da fronteira agrícola;
As
siderúrgicas e produção ilegal do carvão;
As
concessões de terras públicas a empresas mineradoras;
Lançamento da Base de Alcântara.
Impactos das grandes obras: rodovias, barragens, gasodutos, oleodutos,
bases militares, campos de prova das forças armadas.
Depois de fazer a pesquisa, que tal fazer um belo mural de exposição pra comunidade?
Alguns sites que podem ajudar na pesquisa...
http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2006/05/353004.shtml
http://agenciacartamaior.uol.com.b
Celebrando a Vida em tempo de Direitos
Local
O local ideal é uma quadra de esportes ou um espaço bem amplo e arejado. Localizar, em pontos estratégicos para que a quadra fique iluminada, sete pilhas de tijolos com latas de Nescau cheias de estopa embebida em óleo de carro. Só serão acesas no momento de iniciar a celebração. Pelo chão deverão estar espalhados gravetos de tamanhos diversos, significando nossa contribuição ao desamor. Deve-se deixar também, em vários pontos da quadra, velas de variados tamanhos, formando pequenos aglomerados de luzes. Elas devem também estar apagadas. Ao centro, uma "pira" (uma bacia ou uma lata) para se queimar os gravetos. Deixar ao lado também uma garrafa com álcool para acender a pira. Um círio pascal deve ficar a um canto da quadra para que possa ser entronizado no momento oportuno. Preparar um altar com a Palavra.
Acolhida
As pessoas, ao chegarem, devem ser acolhidas e encaminhadas para a quadra. Podem ficar em pé ou podem assentar em arquibancadas ou cadeiras colocadas especialmente para esse fim.
Deve ser tocada no som música para vivência da Palavra. As luzes, neste momento, devem ser mínimas, o quanto possível.
Dirigente: Diz uma palavra de acolhida, explicitando o objetivo da celebração.
Celebração
Sacerdote: Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Que a graça de Deus, Pai, Filho e Espírito Santo, invada hoje os nossos corações, alegrando-nos na sua paz e nos fazendo felizes.
Todos: Que Ele fique sempre com a gente.
Sacerdote: Estamos iniciando nossa celebração penitencial. Aqui nos reunimos para refletir e rezar não os nossos erros e limitações, mas o grande amor que Deus tem por nós. Amor que nos invade, que nos rodeia, que nos liberta, que nos salva. Amor que nos lança para a vida e vida vivida na fraternidade. Amor que ao nos construir, constrói também o Reino, sonho de Deus para o mundo, para realizar uma sociedade mais justa e mais fraterna. Amor que acolhe, sustenta, dá força e, sobretudo, conduz nossas vidas. Amor que é vida e que, portanto, nos alimenta na caminhada em direção a Deus. Amor também que muitas vezes negamos com nossas palavras, com nossos gestos e exemplos, com nossas vidas nem sempre orientadas para ele. Amor que tanto almejamos e que, quando bate em nossa porta, nos fechamos a ele. Amor que é exigente, que nos chama a fazer uma opção clara e concreta, testemunhando de que lado a gente está. Amor que sabe de nossas fraquezas e limitações e respeita profundamente o que cada um de nós é. Amor que, ao cabo de tudo, nada mais quer do que simplesmente nos fazer amados e aconchegados no colo do Pai.
Pois essa noite é o tempo de celebrarmos esse aconchego. Venham, irmãos! Vamos de volta à casa do Pai. Ele nos aguarda.
Dirigente: Iniciemos ouvindo a canção:
Música:
Proclamação da narração da criação
Dirigente: Neste momento, ouviremos o relato da criação. Deus manifesta o seu amor criando e o transmite às obras que realiza.
Entram os sete jovens preparados para proclamar a história da criação. Um por vez, aproxima-se da tocha apagada. Enquanto os leitores narram, o jovem deverá ilustrar as palavras com gestos.
Leitor 1: No princípio Deus criou o céu e a terra. A terra, porém, estava informe e vazia. As trevas cobriam o abismo, mas o Espírito de Deus pairava por sobre as águas. Disse Deus: "Haja luz." E houve luz. Viu Deus que a luz era boa. Então, separou a luz das trevas. Deus chamou a luz de "dia" e as trevas de "noite."
Jovem 1: Houve tarde e houve manhã: o primeiro dia da criação. (Acende a tocha e fica ao lado dela.)
Leitor 2: Disse Deus: "Haja um firmamento no meio das águas, para separar umas das outras." E assim se fez. Deus fez o firmamento que separou as águas que estão debaixo do firmamento daquelas que estão por cima do firmamento. E assim se fez. Deus chamou o firmamento "céu."
Jovem 2: Houve tarde e houve manhã: o segundo dia da criação.
Leitor 1: Disse Deus: "Juntem-se num só lugar as águas que estão debaixo do céu e apareça o elemento seco." E assim se fez. Deus chamou o elemento seco de "terra" e ao ajuntamento das águas chamou mares. E Deus viu que isso era bom. E disse ainda: "Verdeje a terra com o que é verdejante, ervas que produzam sementes e árvores frutíferas que dêem suas espécies de frutos nos quais está contida a semente por sobre a terra." E assim se fez. A terra produziu o que é verdejante, ervas que contêm semente conforme sua espécie, e árvores frutíferas com suas espécies de frutos nos quais está contida a semente. E Deus viu que isso era bom.
Jovem 3: Houve tarde e houve manhã: o terceiro dia da criação.
Leitor 2: Deus disse: "Haja luzeiros no firmamento dos céus para separar o dia da noite. Sirvam eles de sinais para as estações, os dias e os anos. Sejam eles no firmamento dos céus os luzeiros que iluminem a terra". E assim se fez. Deus fez os dois grandes luzeiros: o luzeiro maior, para dominar o dia, e o luzeiro menor para dominar a noite, e as estrelas. Deus os colocou no firmamento do céu para iluminar a terra, para que presidissem o dia e a noite e para que separassem a luz das trevas. E Deus viu que era bom.
Jovem 4: E houve tarde e houve manhã: o quarto dia da criação.
Leitor 1: Deus disse: "Pululem as águas de seres animados e voem as aves por sobre a terra, debaixo do firmamento do céu". E assim foi feito. Deus criou os grandes monstros do mar e todos os seres animados que deslizam pelas águas, de cujas diferentes espécies pululam as águas, como também todas as espécies de seres alados. E Deus viu que assim era bom. Deus os abençoou dizendo: "Sede fecundos e multiplicai-vos, enchei as águas do mar; multipliquem-se também as aves sobre a terra".
Jovem 5: Houve tarde e houve manhã: o quinto dia da criação.
Leitor 2: Disse também Deus: "Produza a terra seres vivos de diferentes espécies: animais domésticos, animais rasteiros e animais selvagens de diferentes espécies". E assim foi feito. E Deus fez as diferentes espécies de animais selvagens, de animais domésticos e de animais rasteiros da terra. E Deus viu que assim era bom. Por fim Deus disse: "Façamos o homem à nossa imagem, como nossa semelhança. Domine ele sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais domésticos, todos os animais selvagens e todos os répteis que rastejam sobre a terra". E Deus criou o Homem à sua imagem; Homem e mulher Ele os criou. Deus os abençoou dizendo: "Sede fecundos e multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a; dominai sobre os peixes do mar, as aves do céu e todos os animais que rastejam sobre a terra". Deus disse: "eu vos dou por alimento toda planta que contém semente sobre a superfície de toda a terra, e todas as árvores frutíferas que contêm semente: isso vos sirva de alimento. A todos os animais selvagens, a todas as aves do céu e a tudo que rasteja sobre a terra lanimado de sopro de vida, dou, para que se alimentem, as plantas verdes". E assim se fez. Deus viu tudo o que fizera e eis que estava muito bom.
Jovem 6: Houve tarde e houve manhã: o sexto dia da criação.
Leitores 1 e 2: Assim foram terminados o céu e a terra. Terminou Deus toda a obra que fizera.
Jovem 7: Houve tarde e houve manhã: o sétimo dia da criação. Depois, Deus descansou. (Todos os jovens se abaixam. Sentam-se ou deitam-se. Em posição de descanso.)
Música:
Depois, silêncio...
Sacerdote
De Deus viemos, para Deus voltaremos. Viemos da luz, voltaremos para a luz. Vivemos num caminhar em direção a algo e a alguém. Vivemos buscando a realização do sonho divino, do projeto de Deus para cada um de nós. É certo que neste caminhar muitas vezes caímos ou, no mínimo não correspondemos ao que o Criador quer de nós. Mas só cai quem caminha. Quem fica parado no seu comodismo, não cai, mas também não chega.
Dirigente
Neste momento vamos deixar nossos lugares e caminhar em direção à luz. Vamos formar uma grande roda em torno da quadra. Pelo caminho, vamos vendo quais são os obstáculos (gravetos) que nos fazem cair. Abaixe-se e pegue aquele que mais se assemelha às suas limitações. São muitas? Pegue um graveto maior. São mais ou menos? Pegue um graveto médio. São pequenas? Pegue um graveto menor. Ninguém precisa olhar o graveto de ninguém. Guarde-o com você. Vamos agora formar grupos em torno das tochas. Vamos contemplar a luz, sinal da presença da ação criadora de Deus em nosso meio. Música:
Narração da destruição do mundo
Enquanto todos estão em silêncio, inicia-se a narração.
Leitor 1: No princípio Deus Criou o céu e a terra. Depois de muitos milhões de anos, o homem criou coragem e resolveu assumir o comando do mundo e do futuro. Então, começaram os seis últimos dias da história. Naquele dia o homem resolveu ser livre e belo. Resolveu que não seria mais a imagem e semelhança de Deus, mas simplesmente homem. E como devia acreditar em alguma coisa, acreditou em bolsa de valores e progresso; em planejamento e desenvolvimento e, em especial, em segurança. A segurança era a base. Disparou satélites e preparou foguetes carregados de bomba atômica. Houve uma tarde e uma manhã.... era o primeiro dia de destruição. (O jovem 1 apaga a luz. E cai, próximo à tocha. Tempo de um pequeno silêncio.)
Leitor 2: Depois morreram os peixes dos rios poluídos pelos dejetos industriais; morreram os peixes do mar pelo vazamento dos grandes petroleiros e pelo depósito do fundo dos oceanos: os depósitos eram radioativos. Morreram os pássaros do céu, impregnados de gazes venenosos; morreram os animais, selvagens e domésticos, envenenados pelos gases tóxicos das descargas de carros e fábricas. Houve uma manhã e uma tarde. Era o segundo dia de destruição. (O jovem 2 apaga a tocha.)
Leitor 1: Secaram os capins dos cerrados, a folhagem das árvores, o musgo nos rochedos e as flores nos jardins. O homem resolveu controlar as estações do ano segundo o critério da produtividade a todo custo. Assim secaram-se os mananciais, os riachos e os rios. Faltou água para saciar a sede, para lavar o corpo, para cozinhar... A seca era imensa, o fogo tomou conta de tudo. As queimadas... Houve uma manhã e uma tarde... era o terceiro dia de destruição. ( O jovem 3 apaga a tocha.)
Leitor 2: Morreram bilhões de pessoas. Homens e mulheres. Doentes, famintos, assassinados. Contaminados por vírus que a ciência julgara ter controlado. Guerras... As guerras foram disseminando a morte. A fome foi implacável. As doenças não perdoaram. E todos amaldiçoavam a Deus: Se Ele era bom, por que permitia tantos males? Houve uma manhã e uma tarde... Era o quarto dia de destruição. (O jovem 4 apaga a tocha.)
Leitor 1: O desastre, a destruição continuava. Foram encontrados mendigos mortos, habitantes das ruas, dos becos, dos buracos... mortos de fome, de frio, doenças. Menores de ruas, ainda com saquinhos de cola nas mãos, sem respirar... jovens drogados, overdose... Presos políticos, torturados, maltratados... todos mortos. Houve uma manhã e uma tarde... era o quinto dia de destruição. (O jovem 5 apaga a tocha)
Leitor 2: Mais mortandade foi constatada: indígenas, os verdadeiros donos da terra, das matas, dos rios, foram cruelmente assassinados por latifundiários poderosos, usurpadores de terras. Meninas foram estupradas em troca de um prato de comida. Usadas, violentadas para o prazer de alguns. E como se já não bastasse, os últimos homens resolveram acionar o botão vermelho que fazia explodir bombas atômicas, porque se sentiram ameaçados. E um fogo vermelho envolveu o planeta. E tudo ficou negro e esfumaçante. O planeta azul agora era cinza. Houve uma manhã e uma tarde. Era o sexto dia de destruição. (O jovem 6 apaga a tocha.)
Leitores: O caos era total. Os anjos comentavam a fascinante história e o fim dramático do homem que assumira os comandos do mundo. Houve uma tarde e uma manhã... Era o sétimo dia da destruição. E tudo acabou. (O jovem 7 apaga a tocha. Neste momento é importante, se possível, apagar todas as outras luzes do pátio.)
Proclamação do texto do Pai Misericordioso.
Sacerdote: Meus irmãos e irmãs. Nada impede que o homem vá até o fim de suas possibilidades, mas resta ainda uma esperança: que o mundo, e com ele o homem e seu futuro, estejam nas mãos de um outro homem: Jesus de Nazaré. Lá no fundo, apesar de todos os males causados pelo homem há uma luz. E essa luz é Jesus. É luz que, mais que ilumina, aquece, reacende, reanima, dá vida às nossas vidas apagadas. Vamos acolher essa luz.
O Círio
Já aceso, vai passando de mão em mão, acendendo novamente as tochas e os arranjos de velas que estão pela quadra, até que tudo fique iluminado. Os próprios participantes se encarregam desse momento. Enquanto o círio vai passando pode-se colocar uma música clássica bem alegre.
Música
Sacerdote: Evangelho: Lc 14, 11-24 (Homilia)
Sacerdote: (Conclui) Mas não basta que a luz de Jesus nos ilumine. É preciso que nos comprometamos com ela. Assim, num gesto de quem se deixa guiar por essa luz, o Cristo Ressuscitado, vamos tomar nossos "pecados" simbolizados pelos gravetos e depositá-los na pira. Assim sinalizamos o nosso desejo de estarmos mais atentos ao bem, à vida, a Jesus, ao Reino, a seu projeto.
A pira
Todos deverão colocar seus gravetos na pira e voltar aos seus lugares. O sacerdote acende-a. Um pequeno tempo de contemplação e silêncio.
Rito do perdão
O sacerdote profere o rito como de praxe.
Dirigente: Não buscamos e nem seguimos a luz sozinhos. Buscamos e seguimos a luz em comunidade. Por isso vamos, neste gesto, dizer uns para os outros que vamos nos ajudar. Tomemos nossas mãos e juntos rezemos:
Pai Nosso que estais nos céus...
Poesias
O SABIÁ
(Joaquim Roberto de Araujo)
Na espessa mata fechada,
Entre rios, córregos, cachoeiras
E vertentes cristalinas e frias,
nasceu o sabiá laranjeira.
Em seu ninho fofo e macio,
No meio de orquídeas perfumadas
E as flores da primavera
Crescia alegre e sadio o sabiá laranjeira
Muito cedo o filhote aprende a voar,
Sempre guiado e vigiado pelos pais.
O sabiá esperto e confiante,
Voa apenas perto dos pais vigilantes.
O sabiá, agora com segurança,
Se projeta em vôos longos e rasantes,
À procura de frutos silvestres
Abundantes nas matas circundantes.
O seu canto suave e harmonioso,
Enchia a floresta de sons.
A floresta emudecia ao gorjeio
Do mestre sabiá laranjeira.
Mas o seu canto mavioso
não passa despercebido pelo homem,
Que com malícia e negaça,
Aprisiona o feliz sabiá.
Em pequena gaiola aprisionado,
Pendurado em um cômodo imundo,
Cheirando a excremento humano,
O sabiá foi definhando.
Não comia, apenas água p