Para Refletir

 

 

Ecumenismo: Esperança e desafios

 Revda Margarida Ribeiro*

 

 

Quero trazer a memória 

o que me pode dar a esperança.

(Lm 3.21)

 

 Trazer à memória é recordar...  A palavra recordação tem sua raiz no latim recordis,que quer dizer trazer de volta  ao coração. Portanto, trazer de volta ao nosso coração, a nossa vida, o que nos pode dar a esperança.

Esperança de que o sonho de Deus para a humanidade se realize: “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância”.Jo 10.10 Mas para isto é necessário, dentre tantas ações,... crer, lutar e participar, não sozinhas, solitárias; mas solidárias, enfrentando as mais diversas situações. Pois, como fechar os ouvidos em meio à corrupção, como fechar os olhos meio à violência, quando aproximadamente 40.000 pessoas são fulminadas com armas de fogo em nosso País, é o que demonstra a estatística de 2002. Infelizmente, a cada quatro minutos uma mulher é espancada, e a cada sete minutos uma criança morre  de fome no mundo. Há violência não somente contra as mulheres e as crianças, mas também contra as pessoas idosas. Quanto a juventude, esta perde a sua vida em meio ao trânsito violento e as drogas... Temos que ter coragem e abrir a nossa boca, e denunciar estas e outras situações; coragem para agir como profetas e profetisas, denunciando o que tem impedido o ser humano de viver com dignidade e abundância de vida; coragem para anunciar as Boas Novas.

E uma boa notícia, é bem vinda entre nós, principalmente quando temos a oportunidade de enfrentarmos estas situações, unindo as nossas forças, e vivenciando o ecumenismo.  E por falar em ecumenismo, é oportuno trazer à memória que a palavra  ecumenismo, tem a sua raiz no termo oikoumene  que está relacionado com a terra habitada, o universo, o mundo. Portanto, inclui a diversidade de línguas, culturas, raças, e outras.

 Na literatura bíblica, especialmente no Novo Testamento, esse termo aparece aproximadamente 15 vezes. E a Bíblia expressa de forma clara e imperativa, como sendo da vontade de Cristo, a unidade dos cristãos:

 

“Não rogo somente por eles, mas pelos que por meio de sua palavra, crerão em mim: a fim de que todos sejam um. Como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, que eles estejam em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste. Eu lhes dei a glória que me deste para que sejam um, como nós somos um: Eu neles e tu em mim, para que sejam perfeitos na unidade e para que o mundo reconheça que me enviaste e os amaste como tu me amaste. Pai, aqueles que me deste quero que, onde eu estou, também eles estejam comigo, para que contemplem a minha glória, glória que me deste antes da criação do mundo”. (Jo 17.20-24)

 

Esta passagem bíblica é conhecida como a oração sacerdotal de Jesus Cristo ou oração pela unidade. Jesus se dirige ao Pai e intercede por toda a comunidade, não somente pelos seus discípulos e pelas pessoas que o seguiam, mas por todos aqueles que viessem a crer por intermédio deles. Portanto, Jesus estava também orando por nós, que temos a responsabilidade e o privilégio de participar da sua missão.

A oração sacerdotal de Jesus é desafiadora e tem sido entendida como condição essencial para que o mundo creia. A unidade é a antecipação da promessa escatológica do Reino de Deus, que está presente entre nós, e também é sinal de amor, tolerância e reconciliação entre a humanidade e o Deus da Vida.

Nas cartas paulinas, a unidade da Igreja é comparada ao corpo de Cristo, conforme 1 Coríntios 12.12-30. Como o corpo humano une a pluralidade de seus membros, assim também Jesus une a comunidade cristã na unidade do seu Corpo. É necessário dizer que o que o capítulo 13 apresenta o hino ao amor, que é o que possibilita à comunidade cristã encontrar-se em meio à diversidade.

Ecumenismo é a afirmação e o reconhecimento da diversidade dos dons e ministérios concedidos por Deus ao seu povo. Ninguém pode reivindicar para si a representação plena do Corpo de Cristo, mas todos podemos e temos o privilégio de ser parte desse Corpo. O apóstolo Paulo insiste em chamar o povo à unidade, como é possível evidenciar na carta aos Efésios:

 

Exorto-vos, pois, eu, o prisioneiro no Senhor, a andardes de modo digno da vocação com que fostes chamados: com toda humildade e mansidão, com longanimidade, suportando-vos uns aos outros em amor, procurando conservar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz. Há um só Corpo e um só Espírito, assim como é uma só esperança da vocação com que fostes chamados; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo; há um só Deus e Pai de todos, que é sobre todos, por meio de todos e em todos (Ef  4. 1-6).

 

Portanto, não podemos continuar apregoando a tolerância, e vivermos a intolerância, mas com respeito, buscarmos não meramente com palavras, mas também com ações, vivenciar o testemunho de solidariedade, e percorrer em unidade os caminhos da missão!  

 

* Revda. Margarida Ribeiro (Pastora da Igreja Metodista, Coordenadora da Cátedra Otília Chaves, Coordenadora da Área de Apoio Pastoral ao Corpo Discente da Faculdade de Teologia da Igreja Metodista, Assessora Bíblica Teológica da Nova Década - Ação Ecumênica de Mulheres - CONIC, Vice-presidente do Conselho Judaico Cristão).