![]() |
JPIC |
|
Dois anos da morte de Ir. Dorothy Homilia de D. Erwin K.
Homilia de Dom Erwin Krautler, Bispo do Xingu (PA), por ocasião do segundo aniversário de morte de Irmã Dorothy.
Caríssimos irmãos e irmãs em Nosso Senhor Jesus Cristo, meu bom Povo de Deus de Anapu e de outros municípios da Transamazônica e do Xingu, Reunimo-nos hoje aqui em Anapu para celebrarmos o segundo aniversário de morte da Irmã Dorothy. Lembrar os nossos irmãos e irmãs falecidos no exato dia em que partiram é expressão de nossa fé na Ressurreição. Já o 2º Livro dos Macabeus, escrito uns 160 anos antes de Cristo, considera “santo e piedoso“ fazer orações pelos defuntos e explica a razão: “De fato, se ele não tivesse esperança na ressurreição dos que tinham morrido na batalha, seria supérfluo e vão orar pelos mortos“ (cfr. 2 Mac 12,42-46). Lembrar os falecidos é uma profissão de fé na vida eterna. Apoiamo-nos na súplica que o próprio Jesus dirigiu ao Pai na véspera de sua paixão e morte: “Pai, aqueles que me deste, quero que, onde eu estiver, também eles estejam comigo, para que contemplem a minha glória, que me deste, porque me amaste antes da fundação do mundo“ (Jo 17,24). Em todas as celebrações eucarísticas rezamos pelos “nossos irmãos e irmãs que morreram na esperança da ressurreição“ (Oração Eucarística II). A segunda leitura deste domingo pontualiza: “Se é para esta vida presente que pusemos nossa esperança em Cristo, somos – de todos os homens – os mais dignos de compaixão. Mas, na realidade, Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram“ (1 Cor 15,19-20). Rezamos, recordamos, choramos, mas, via de regra, na medida em que o tempo passa o número dos participantes dos atos litúrgicos comemorativos diminui e as lágrimas escasseiam. Aos poucos nos conformamos com a perda irreversível de um ente querido. Afinal de contas morrer é a sina implacável que paira sobre todos nós. Resignados costumamos afirmar “Chegou a hora dele! Chegou a hora dela!“ e passamos para os compromissos do dia-a-dia, pois para nós que ficamos, a vida continua. A celebração de hoje, no entanto, é diferente. Não se insere nos tradicionais serviços religiosos realizados em aniversários de morte e não se restringe a parentes e amigos da família. O número de participantes não diminui com o passar do tempo. Hoje, além do Povo de Deus presente aqui em Anapu, milhares de pessoas no Brasil e no exterior estão recordando a morte da Irmã Dorothy. Pelo mundo afora, nos mais diversos idiomas se elevam preces a Deus, não tanto pelo eterno descanso da Irmã, pois todos acreditamos que ela esteja junto do Pai, contemplando “o que Deus preparou para os que o amam“ (1 Cor 2,9), mas pelos que foram durante a sua vida os prediletos da Irmã Dorothy. Quem hoje faz uma prece lembrando a Irmã Dorothy reza pelos pobres, pelos excluídos, pelos desterrados, pelos ameaçados de serem expulsos de suas roças, pelos sem-terra, sem-teto, sem-nada. Quem hoje formula uma oração recordando a Irmã não deixa de pedir a Deus que ilumine o coração e a mente de todos os homens e mulheres, mormente das autoridades, para que parem de arrasar a Amazônia, para que desistam de saquear, derrubar e queimar de modo inescrupuloso esta terra que Deus nos concedeu para que zelássemos por ela com todo o carinho a bem dos filhos e netos desta geração. O assassinato da Irmã Dorothy dois anos atrás, infelizmente não é um fato isolado. Foi apenas mais um dos capítulos sangrentos da Amazônia ligado à grilagem de terras, à destruição programada desta região, à exploração de suas riquezas de forma devastadora, ao trabalho escravo, à agressão infame aos mais elementares direitos humanos, ao deliberado desrespeito da própria Constituição Brasileira. E pior, os que continuamente se insurgem contra a Carta Magna do País e calcam com seus pés a dignidade humana alheia ainda tem a petulância de usar os meios de comunicação ou subir a palanques, travestidos de defensores da Pátria, para criticar e condenar os esforços de uma minoria que quer salvar a Amazônia por amor às futuras gerações. A celebração de hoje é diferente, pois não lembramos alguém que morreu em conseqüência de uma doença ou de algum acidente. Não! O que lembramos é a morte de uma Irmã que tombou! Foi friamente executada, à queima-roupa, brutalmente assassinada. Aqui não cabe resignar-se com a afirmação “Chegou a hora dela!“ Ela “morreu antes do tempo“, não por desígnio divino mas por perversa deliberação humana. Dois anos depois do crime apenas o rapaz que atirou, seu comparsa e aquele que intermediou o crime, foram julgados. E os outros? Onde estão aqueles que encomendaram o crime? As investigações infelizmente pararam. O Consórcio do Crime mais uma vez ficou incólume e se prepara para o próximo golpe. Continuo a afirmar que os responsáveis pela morte bárbara da Irmã Dorothy não são apenas os que foram julgados. Este crime foi preparado até os seus detalhes e encomendado a sangue frio. Não é “sede de vingança coletiva“ que nos move, como argumentou o Ministro Cezar Peluso quando soltou o ”Taradão“. O que queremos é justiça! Queremos o fim da impunidade! Com despachos deste tipo emanados da mais alta Corte da Justiça neste País, é claro que Consorcio do Crime se sente corroborado em sua guerra aberta contra aqueles que defendem a Amazônia, os povos indígenas, os pobres colonos. Essa gente semeou e continua semeando o ódio contra quem exige justiça, a apuração dos fatos e o fim da impunidade. Quem abre a boca, corre risco de vida. Exigimos a retomada das investigações.
A celebração de hoje é diferente, pois não
cumprimos apenas um dever de piedade cristã. É verdade: “A vida continua!“.
Mas diante do sangue derramado de uma Irmã e de tantas e tantos mártires
desta Amazônia, esta nossa vida tem que se tornar compromisso para além de
nossa vida familiar e profissional. É a esperança no Senhor que nos impele,
“Bendito o homem que confia no Senhor, cuja esperança é o Senhor!“ (Jr 17,7)
exclama o Profeta Jeremias na primeira leitura de hoje. Não é uma esperança
passiva, apática, indiferente. A esperança no Senhor é ativa, envolvente,
comprometida, apaixonada. Sempre de novo se organiza e não se deixa
intimidar. Não se cansa, não bate nunca em retirada, pois se alicerça na
Palavra de Deus. O Evangelho nos mostra que o Senhor mesmo vai ao encontro
dos pobres, dos famintos, dos que choram, dos que são odiados, expulsos e
insultados. O Senhor mesmo chamou a Irmã Dorothy e continua chamando a
tantas pessoas, mulheres e homens, para tornarem-se porta-voz de sua
Palavra, instrumento na sua mão, força-tarefa para realizar o seu projeto.
As bem-aventuranças são a concretização do programa que Jesus apresentou na
sinagoga de Nazaré. “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me
consagrou com a unção para anunciar a boa nova aos pobres“ (Lc 4,16). Jesus
se dirige aos pobres. Sua mensagem é boa nova para os pequenos, para o povo
simples que apesar de todo o sofrimento nunca perde a esperança. Os pobres
não nasceram atingidos por um golpe de má sorte. São pobres por causa da
violência, exclusão, da falta de partilha. São vítimas da injustiça, da
prepotência, da exploração, do desdém, da omissão ou conivência, da
arbitrariedade dos financeira e politicamente poderosos. Jesus é enviado
pelo Pai para derramar sua misericórdia e bondade sobre esse povo. E como
Jesus mostra hoje esta sua predileção para com os sem voz e sem vez? É por
aquelas e aqueles que chama e envia em todas as épocas para anunciar em seu
nome o Reino e dar testemunho de seu amor, até as últimas conseqüências. A
segunda parte do Evangelho, as “maldições“, são apenas o reverso da medalha.
Desmascara o egoísmo e auto-suficiência dos poderosos e as injustiças e
violências que cometem. Quem de nós, ao ouvir o Evangelho deste domingo não o associa imediatamente às últimas palavras que Irmã Dorothy falou em vida, antes de ser assassinada. Há apenas a diferença do evangelista. Dorothy citou o Sermão da Montanha do Evangelho de São Mateus. O Evangelho de hoje faz parte do assim chamado Sermão da Planície de São Lucas. O tema porém é o mesmo: a predileção de Deus pelos pobres, pelos famintos, pelos que choram. Mas revela também a promessa de Deus: “Bem-aventurados sereis, quando os homens vos odiarem, vos expulsarem, vos insultarem e amaldiçoarem o vosso nome por causa do filho do homem! Alegrai-vos, nesse dia, e exultai, pois será grande a vossa recompensa no céu, porque era assim que os antepassados deles tratavam os profetas“ (Lc 6,23). Irmã Dorothy já recebeu a recompensa no céu. Nossa vida continua! Pedimos a Deus que nos conceda a graça da perseverança e fidelidade. Que nossa vida seja inteiramente consagrada a Deus e aos prediletos de Deus, aos pobres, aos famintos, aos que choram. Amém.
|